Arte Urbana
Este blog é parte complementar de um livro-reportagem que está sendo produzido pelos estudantes de jornalismo Andre Batista e Letícia Iambasso. Em dezembro, o livro fica pronto com perfis de artistas de rua de São Paulo.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Rock In Rua!
Enquanto Kesha grita para uma plateia desanimada, Allyrio Mello emociona dezenas de pessoas. As diferenças entre os públicos e os shows são gritantes: de um lado, quase cem mil pessoas atentas olham a histérica loira quebrar a guitarra rodeada de monstros, sem emocionar quase ninguém. Do outro lado da Cidade do Rock, um rapaz de roupas simples e violino elétrico leva dezenas de pessoas às lágrimas. Não há quem simplesmente passe por ele. Todos têm que parar para ouvir a Aquarela do Brasil Rock and Roll.
A cantora de 25 anos exigiu barcos, salada de algas, vinagrete balsâmico, e dezenas de outras coisas sem importância artística, mas só conseguiu resposta da plateia na última música do show, Tik Tok. Enquanto isso, Allyrio, de 43 anos, bacharel que é, dava uma verdadeira aula de arte e música. Quando os acordes inconfundíveis de "Stairway to Heaven", de Led Zeppelin, saíram de seus violinos, lágrimas e gritos de incentivos saíram do público.
Já Denis Ribeiro de Oliveira se apresentou ao mesmo tempo em que todos os grandes astros: Rihanna, Jamiroquai, Cláudia Leite, Katy Perry, Red Hot Chili Peppers, Slipknot... É claro que ele não ofuscou o brilho dessas estrelas, mas mostrou que a arte é muito mais do que brilhar em um palco. A estátua viva com maquiagem e atuação impecáveis ganhou o coração de todos que passaram por ali. Sua beleza era simplificada em uma simples flor dada a quem passasse por perto. Ninguém tirou fotos com Lenny Kravitz ou Coldplay, mas quase todos tiraram foto com a estátua do Freddie Mercury.
Diante das apresentações feitas, eu me pergunto: a arte estava no atraso do Maroon 5, no marasmo do [já não mais] Guns n'Roses ou na marionete do Bob Marley que fazia malabarismos impressionantes?
O Rock in Rio acabou, mas o Rock in Rua está apenas começando!
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Agradecimentos*
Final de mais um expediente cansativo no trabalho. A saída é cheia. A rua é fria. Mas é ali que ele está. Enquanto me esforço para andar os pesados passos que me levam até a saída do metrô, esbarrando em pessoas e desviando de buracos, ele parece estar alheio ao mundo apressado em que vivemos.
Pergunto-me qual será aquela melodia. Tenho certeza que eu conheço, mas não me lembro de onde. Leva-me a um tempo distante, onde eu passava os fins de tarde assistindo televisão, correndo na rua com meus amigos. Um tempo em que minha maior preocupação era a prova da semana que vem. Como era difícil decorar todas aquelas regras de gramática, todas aquelas datas da história. Capitais, tabuadas, órgãos humanos. Daria tudo pra correr o risco de voltar pra casa com boletim vermelho de novo. Pelo menos poderia aproveitar de novo as aulas de Educação Física.
E esse frio? Quantas vezes me enrolei debaixo da coberta para assistir qualquer filme que estivesse passando na Sessão da Tarde ou no Cinema em Casa?! Muito mais confortável do que a cadeira na qual costumo passar as tardes, em frente a um computador que me dar dor de cabeça quase todo dia.
Bethoven? Andrea Bocelli? Zezé di Camargo e Luciano? Que música é essa? O mecanismo automático dos meus passos não permite que eu pare para descobrir de onde conheço a melodia. E na pressa comum a todos os paulistanos, nem reparei no barulho dos carros que com certeza estavam buzinando sem parar. Não me lembro do rosto do músico. Ainda não sei qual é a canção. Mas essa melodia com sabor de infância me acompanhará até a hora de dormir. Obrigado!
*Milhares de pessoas podem já ter vivido esta cena sem ter se dado conta. A caminho do trabalho ou na saída sempre haverá aquela pessoa, em um canto, no meio da rua, nas calçadas e praças, com seu instrumento, sua voz ou seu corpo fazendo algum tipo de arte urbana, colorindo o cinza da cidade e contrapondo o barulho da grande metrópole com a harmonia de seu ser. Esse texto é em nome de todas os trabalhadores e cidadãos que passam por esses artistas diariamente.
Andre Batista
E esse frio? Quantas vezes me enrolei debaixo da coberta para assistir qualquer filme que estivesse passando na Sessão da Tarde ou no Cinema em Casa?! Muito mais confortável do que a cadeira na qual costumo passar as tardes, em frente a um computador que me dar dor de cabeça quase todo dia.
Bethoven? Andrea Bocelli? Zezé di Camargo e Luciano? Que música é essa? O mecanismo automático dos meus passos não permite que eu pare para descobrir de onde conheço a melodia. E na pressa comum a todos os paulistanos, nem reparei no barulho dos carros que com certeza estavam buzinando sem parar. Não me lembro do rosto do músico. Ainda não sei qual é a canção. Mas essa melodia com sabor de infância me acompanhará até a hora de dormir. Obrigado!
*Milhares de pessoas podem já ter vivido esta cena sem ter se dado conta. A caminho do trabalho ou na saída sempre haverá aquela pessoa, em um canto, no meio da rua, nas calçadas e praças, com seu instrumento, sua voz ou seu corpo fazendo algum tipo de arte urbana, colorindo o cinza da cidade e contrapondo o barulho da grande metrópole com a harmonia de seu ser. Esse texto é em nome de todas os trabalhadores e cidadãos que passam por esses artistas diariamente.
Andre Batista
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
A praça, enfim, está cheia
![]() |
| Estátua viva de Fernando Pessoa |
Era mais um sábado de sol na grande cidade. O centro de compras estava lotado, pessoas iam e vinham com suas sacolas cheias, conversando alto por todos os cantos. A semana passada foi dia de pagamento. E no final da semana é preciso gastar. Dizem que quem guarda muito dinheiro, ou perde tudo, ou morre com ele.
Uma música de um cara póstumo está tocando mais a frente. O que seria aquela tamanha roda em frente à Praça do Patriarca, na Rua Direita? Mais para trás já tinha passado por rodas de pastores pregando, vendedores ambulantes e até mesmo de professores de matemática. Contudo, aquela roda parecia ser diferente e maior do que as outras.
Por que diferente? Ela estava mais aberta, com espaços mais largos no centro e de lá vinha uma música de alguém que deixou a Terra não faz muito tempo e que parece que ainda está entre nós: Michael Jackson.
Chegando mais perto é possível ver entre rostos, cabeças e corpos da multidão o que se passava. Três garotos, com idades entre seis e 15 anos, faziam ali jus ao nome que escolheram para homenagear. Dançavam como o rei do pop, mas havia algo mais: corpos e pés tinham uma sincronia perfeita.
Ao final de cada música passavam com uma caixa recolhendo contribuições a quem quisesse gratificá-los pela apresentação cover de um ídolo. Poucos jogavam moedas, outros sorriam e agradeciam, alguns iam embora.
Continuo meu caminho e desemboco no Viaduto do Chá, onde leitores de búzios e ciganas com suas saias coloridas e rodadas disputam as pessoas que querem saber a sorte. Na outra calçada do mesmo viaduto há uma fileira de deficientes visuais sentados entre as guaritas da ponte, aguardando a esmola pedida, com sua bengala descansando ao corpo.
Eles ali, não podem ver, mas hoje, enfim, a praça está cheia, a cidade mais colorida, o sol mais quente. Talvez possam sentir que do outro lado há alguém parado igual a eles, com olhos intactos e corpo de estátua. Ele pode ver, mas sua visão não está ali naquele momento. Seus sentidos são aguçados para escutar um único barulho: o tilintar das moedas na lata.
Mesmo parado, sentado e conversando, ele é um chafariz de atenções por todos os lados. Alguns param para ver o que ele está falando, quase que nem acreditando que uma estátua pode falar ou tem uma vida. Sim! Ele parece de pedra, mas pode se mover. Outros querem tirar uma foto com ele, sentado ou em pé, parado ou em movimento. O importante é fotografar aquele momento.
Porém, ele gosta mesmo das crianças. Não tem uma que não vá perto dele, curiosa. Algumas pedem para a mãe, sem nem mesmo entender o porquê de as moedas darem vida novamente à estátua. Ele agradece, faz uma reverência e entrega um papel que explica a história do personagem que está representando.
É só aquele som que pode movê-lo. Esse som dá vida à estátua e prazer à pessoa que o provoca. Um singelo e simples movimento que leva o sustento para casa. Para ele, a sobrevivência, para quem o ajuda, o alívio da arte.
Ao fundo alguém canta músicas da Legião Urbana: “Será só imaginação? Será que nada vai acontecer? Será que é tudo isso em vão? Será que vamos conseguir vencer?”
Enfim, a praça está cheia.
Letícia Iambasso
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Noites não são escuras
![]() |
| Rafael Pio em apresentação |
Mesmo com todo rigor da estação, a boêmia corre solta pelos bares da avenida. Shoppings, bares, teatros, livrarias. É grande a concentração de pessoas que, ao contrário daquelas que estão ansiando para voltar para casa, querem usufruir o que a noite tem para oferecer.
Talvez elas prestem atenção àquele rapaz, de calça de brim, e guitarra nas mãos tocando em frente a um grande centro de compras. Quem sabe, elas não param para escutar um pouco, ver seu show particular. Quiçá, alguns não o gratificam, botando notas e moedas em um chapéu que descansa em sua frente, no chão.
Unhas pretas, lápis nos olhos, roupas pretas e guitarra branca. Esses são os objetos que ele usa para mostrar sua performance. Sua melodia, não é simples e nem complexa. Não tem estilo e nem regras, porque assim foi feita para ele. Seu carisma não se compra e nem se vende. E seu sorriso demonstra que ele nasceu para aquilo, para tocar e ser admirado. Para tirar um riso de alguém que está passando triste, tirar do marasmo aqueles que se iludem que a vida é sinônima de sofrimento e conformação.
Basta olhá-lo para saber que ele é mais um que tenta mostrar que a cor da cidade não pode ser cinza. Mesmo nos dias de inverno e noites escuras.
Letícia Iambasso
sexta-feira, 29 de julho de 2011
Volta ao mundo em 80 passos
| O artista Tim Max, seu violão e uma bola rasgada usada de "chapéu" |
Assim como não há música mais brasileira, não há um transeunte que não pare para olhar. Que não vire seu pescoço. Que não saia cantarolando "Moça do corpo dourado, do sol de Ipanema ... ".
Ele veio de Presidente Prudente, mas já esteve na França. Sua música, porém, quando tocada na rua, o leva mais longe. O leva a conhecer o mundo todo. Ou pessoas do mundo todo. Como Mitico. Filha de mineiro com japonesa. Abandonada por um alemão. Exaltando canções de Paulinho da Viola. Dando sua contribuição e sua benção para que tudo corra bem com a arte.
Foi na rua que Tim conheceu Alexandre, o produtor-saxofonista-flautista. Foi na rua que Tim conheceu Mano Véio. O mais brasileiro dos japoneses. Ou seria o mais japonês dos brasileiros? Você já viu japonês cantando reggae? Eu já! Passa na Paulista que você vê. É ali que não se esconde a pessoa que gastou todas as economias viajando o mundo. Fazendo o que queria: arte. Você nunca viu um japonês cantando reggae? E um brasileiro cantando um reggae, em japonês, que fale sobre tomar saquê no barzinho? E vou além! Imagine se esse sujeito, que deixa qualquer japonês de boca aberta pela pronúncia perfeita, fosse amigo de Raul Seixas? Pasmem. Ele é.
O Raul chega como quem não quer nada, levando por uma mão sua cachorrinha e pela outra sua mãe. Como grande astro que é, logo se transforma no centro das atenções. Não por orgulho, mas porque pertence à realeza. Porque é respeitado como um rei naquela rua. Porque conquistou sua nobreza com humildade. Procure em qualquer jornal: Folha, Estadão, Fantástico, Agora é Tarde. Em todos eles você verá o Maluco Beleza levantando sua bandeira. Raulzito não morreu! E nem o Elvis. Mas não vou falar sobre ele. Nem sobre o cara que ganhou um tênis do próprio rei. Nem sobre o que ganhou um violão do próprio rei. Nem sobre o cara que fica no vão do MASP, enrolado na bandeira nacional, e já viu Djavan tocando na rua, ao seu lado.
Se você quiser saber sobre isso, terá que ir até lá. Não precisa ir longe para rodar o mundo. Basta ir até a Paulista. Basta dar oitenta passos.
Andre Batista
quarta-feira, 20 de julho de 2011
O Velho Chapéu *
Tinha estado sozinho, no canto, inquieto. Procurando uma forma de sair às ruas novamente. Foram meses sem sucesso. Mas ele vai voltar.
Tira a poeira, se estica, se arruma. Está ansioso por poder caminhar livremente entre as pessoas. O direito de ir e vir que ele sempre prezou. Que ele tem. Por meses foi obrigado a se esconder. Mas ele vai voltar.
Seu perfume inebria a casa pequena, modesta, que lhe serviu de cárcere por mais de um ano. Enquanto ensaia as velhas canções com seu amigo violão, se lembra do tempo em que nenhum cassetete o ameaçava por cantar. Por mostrar a arte. Ele vai voltar.
Mas agora vai voltar mais atento. Mais esperto. Ninguém pode mais lhe tirar das ruas. Palavra de quem manda na cidade. Ou de quem pensa que manda. Por meses teve que lutar escondido para recolher moedas e levar o sustento da casa. Mas esses meses de tortura acabaram. Hoje ele vai voltar.
O mais rápido possível, para perto de sua verdadeira família. Como a cidade sentiu tua falta! As ruas vazias, o povo apressado, a cor escondida, a arte escondida. Hoje seu companheiro o coloca na cabeça e os dois juntos voltarão a trabalhar livremente. Voltarão a praticar a arte livremente. Mesmo que tenha sido proibido de se expor por tanto tempo, ele sempre soube que voltaria. Hoje publicaram o tal decreto. Legalizaram.
Prepare seu sorriso, paulistano, porque ele vai voltar.
* Essa crônica é em homenagem aos artistas de rua que receberam hoje o retorno do direito de poderem se expressar livremente nas ruas e parques de São Paulo sem serem repudiados. Quem quiser saber mais do Decreto N˚ 52.504 pode acessá-lo no Diário Oficial: http://diariooficial.imprensaoficial.com.br/doflash/prototipo/2011/Julho/20/cidade/pdf/pg_0005.pdf
Andre Batista
Tira a poeira, se estica, se arruma. Está ansioso por poder caminhar livremente entre as pessoas. O direito de ir e vir que ele sempre prezou. Que ele tem. Por meses foi obrigado a se esconder. Mas ele vai voltar.
Seu perfume inebria a casa pequena, modesta, que lhe serviu de cárcere por mais de um ano. Enquanto ensaia as velhas canções com seu amigo violão, se lembra do tempo em que nenhum cassetete o ameaçava por cantar. Por mostrar a arte. Ele vai voltar.
Mas agora vai voltar mais atento. Mais esperto. Ninguém pode mais lhe tirar das ruas. Palavra de quem manda na cidade. Ou de quem pensa que manda. Por meses teve que lutar escondido para recolher moedas e levar o sustento da casa. Mas esses meses de tortura acabaram. Hoje ele vai voltar.
O mais rápido possível, para perto de sua verdadeira família. Como a cidade sentiu tua falta! As ruas vazias, o povo apressado, a cor escondida, a arte escondida. Hoje seu companheiro o coloca na cabeça e os dois juntos voltarão a trabalhar livremente. Voltarão a praticar a arte livremente. Mesmo que tenha sido proibido de se expor por tanto tempo, ele sempre soube que voltaria. Hoje publicaram o tal decreto. Legalizaram.
Prepare seu sorriso, paulistano, porque ele vai voltar.
* Essa crônica é em homenagem aos artistas de rua que receberam hoje o retorno do direito de poderem se expressar livremente nas ruas e parques de São Paulo sem serem repudiados. Quem quiser saber mais do Decreto N˚ 52.504 pode acessá-lo no Diário Oficial: http://diariooficial.imprensaoficial.com.br/doflash/prototipo/2011/Julho/20/cidade/pdf/pg_0005.pdf
Andre Batista
Assinar:
Postagens (Atom)



